Queridos amigos

Esta foi uma ciranda diferenciada, com objetivo de difundir
a prática do cordel como manifestação poética genuinamente  brasileira, o cordel se originou das odes poéticas  cantadas pelos bardos na França e Itália, chegou a Portugal e de lá veio para o Brasil onde recebeu as manifestações da cultura local e vários nomes dependendo da região...

Agradecemos a todos que participaram e, souberam manifestarem-se em forma de cordel.

O Cirandas de Letras oferece gentilmente um selo participativo a todos
os amigos que aqui estiveram presentes...

Clique no selo para download.zip



abraços fraternos

Jorge Linhaça

 

 

 

 

TEM CARIOCA NO CORDEL
Carvalho Branco
TEM ALAGOANA NO CORDEL
Leda Mello
TEM PAÚCHO NO CORDEL
Jorge Linhaça
TEM PAULISTA NO CORDEL
Tere Penhabe
TEM ESTRANHA NO CORDEL
Regina Coeli Rebelo Rocha-RJ
Tem Iniciante no Cordel
Marise Ribeiro
NA FRENTE DE TRABALHO
Bernardino Matos
CATARINA NO CORDEL
Mário Osny Rosa
"O CORDELISTA"
Antonio Cícero da Silva
Aprendiz de cordelista
Cássia Vicente
VOZES DO SERTÃO
Socorrinha Castro-florzinha
Mais Carioca no Cordel
Denise Figueiredo
Tem Portugal no Cordel
EvaLuna - Barreiro-PT
Cordelista ou Não?
Ana Maria Marya
MINHAS ANDANÇAS
Marcos Loures

 

 

 

 

Para ser bom cordelista
e cantador de primeira,
não basta ser belo artista
entrando na brincadeira,
precisa ter vocação,
pitada de inspiração
e carregar a bandeira!

O verso do cordelista
nasce na simplicidade
de quem já nasceu artista,
Brinca com sinceridade,
do que se passa na vida,
sem fugir da sua lida,
cantando diz a verdade

Para brincar de cordel
tem que sentir a alegria
rimar com gosto de mel
e libertar as utopias
levar o povo ao céu
degustando um pitéu
nessa nossa cantoria

Não posso me intitular
cordelista de primeira
porém amo a poesia
e gosto da brincadeira
que nem sempre é de riso
porque também é preciso
contar prosa verdadeira.


Não sei o que eu tô fazendo
no meio de tanta gente
Não sei o que tão dizendo
parece um tal de "repente"
Não sei bem o que é isso
Mas tô sentindo um viço
E tô querendo chegar rente


Como sou bem atrevida,
meto aqui o meu umbigo,
pois a alegria da vida
é brincar com os amigos
e se não sair um cordel
apertem a tecla del
e podem brigar comigo.


Como um bom nordestino,
ao cordel estou ligado,
pois tudo, aqui, é contado,
a dor, a reza, o destino,
a certeza e o desatino,
e um caso eu vou contar,
apenas pra ilustrar,
a crença e o pessimismo,
a força do conformismo,
na cultura popular.


Como ser cordelista
Vou cair na brincadeira
Entrar logo nessa lista
Pode sair asneira
Nem tenho inspiração
Muito menos vocação
Senão me bater a carteira.


O cordelista ama a simplicidade
e degustando a cada verso
canta com perfeita lealdade
nunca deixa ninguém disperso
ele gosta muito do que faz
do verso é excelente capataz
e torna-se um homem de aço.


Nunca escrevi um cordel
se não estiver certo
deixa quieto ou me ensina
to escrevendo aqui do Goiás
sou principiante nestas rimas
o que me inspira é o cheiro do mato
o gado no pasto e a soja na terra fria...


Eu venho lá do Nordeste
e nasci lá no sertão,
terra de cantadores
de xaxado e baião,
as vozes do meu sertão
são cordéis de emoção,
que ninam o coração.


Abusada à carioca
Desafio é tentação
Da poesia o cacoete
Do cordel nem tradição
Empenho-me nessa lavra
Donde escrevo as palavras
Que tirei do meu colete

Eu nunca fiz um cordel
Passei a minha fronteira...
Faço quadras a granel
um pouco por brincadeira,
aproveitando este espaço
em toada brasileira
vai daqui aquele abraço.

Já vi mulher artista, vocalista.
Nem por brincadeira, cordelista.
Na Ciranda, não saio da lista.
Não sou poeta, sou realista,
escrevo versos quebrados,
incentivo de amigos,
poetas renomados.



***
Rabisco meus pobres versos,
vou brincando de repente,
proclamando aos universos:
“Sou, no cordel, emergente!”
Que o povo não se ressinta
desta vontade faminta
de eu ser mais proficiente...

Gosto de fazer cordel,
seus versos breves me encantam.
Estou certa que no céu
é cordel que os anjos cantam
ao som da harpa e da lira,
fazendo festa pra Deus,
que conhece os filhos Seus,
cordelistas que admira.

Peguei gosto pela coisa
Cum a Terê das bera mar
é tão ladina a tal moça
e alegre o seu cordelar
as rimas de fina louça
deixam a galera louca
de tanto fazer gargalhar

Se chegar no céu um dia
se São Pedro me barrar
por qualquer anomalia
que eu tenha feito por cá
direi que fui cordelista
sei que entrarei na lista
dos que lá podem ficar.


Sou do Rio de Janeiro
cidade de morros e mar
sol quente o ano inteiro
um calor de arrepiar
Aqui tem o Redentor
Que com todo esplendor
Quer a todos abençoar


Já tentei fazer um antes,
até me senti uma artista,
Linhaça tomou calmante,
foi ver um cardiologista:
- Como pode essa tonta
dizer que já está pronta
pra ser uma cordelista!


Numa frente de trabalho,
estavam dois retirantes,
pararam por uns instantes,
disse um: enquanto eu malho,
debaixo daquele carvalho,
aquele casal bem chique,
está fazendo um piquenique,
alegre, se divertindo,
e nós,aqui, no sol quente,
que chega derrete a gente,
nesse inferno eu vou a pique.


Que a coisa é certeira
Imagino navegar
Vou comprar uma baleeira
Na enseada velejar
Sem a ajuda do vento
Fico logo no relento
Nem sei mesmo nadar.


E rabiscando a cada verso
com muito amor e carinho
fala por você me interesso
porque estou sozinho
a assim se achega à moça
e diz por favor me ouça
que por você estou doidinho.


Entrei nessa alvoroçada
Acossada por Tere
Que me deu um teterê
Entras no cordel traçada
Melhor que muda ou mal calada.
Ou sais da net mal falada.


 

***

Sou carioca da gema,
do “samba-breque” e “Noel”,
mas é verdade suprema:
amo demais um cordel!
Sou poeta aculturado.
A um martelo agalopado
sempre tiro meu chapéu!...

Nas Alagoas nasci,
um berço de repentistas
desde cedo conheci
os versos desses artistas,
pegam um mote ao acaso,
rimam com categoria,
com versos de alegria
fazem o maior arraso.

Sou paulista, paulistano
qui mora nos interior
paúcho fui me tornando
por conta de um amor
cheguei como o minuano
e por aqui já fui ficando
entre o povo acolhedor

Eu já sou santacruzense
nada a ver com o tal cordel
acabei na beira mar
por trama feita no céu
mas carioca por paixão
baiana de coração
de alma sou do cordel.

Tem bastante coisa aqui
Tem verde pra todo lado
Tem bandido e bem-te-vi
Tem lixo solto e ensacado
Ah, meu Rio de Janeiro
tão bonito e tão faceiro
E por tantos maltratado


Não importa, vou adiante,
tentando eu chego lá,
sei que sou uma figurante,
mas a fama ainda virá,
vou tomar umas aulinhas
com a minha amiguinha,
a Tere das Bera Mar.


Num liga não meu amigo,
depois desse sofrimento,
o Céu será nosso alento,
e o inferno o castigo,
o fogaréu o abrigo,
pois aqui viveram bem,
desfrutaram do que tem,
vão queimar eternamente,
naquele calor ardente,
nós livres desse terém


Contorna a bela ilha
Sem muito conhecer
Sei lá quantas milhas
Posso até esmorecer
O tempo vai levar
Nesse belo velejar
Nem penso em morrer.


O cordelista consegue encantar
com seus versos a fluírem
as letras ele consegue devorar
e faz aos outros sorrirem
ele alegra ao recinto
como pedra de absinto
e faz aos povos evoluírem.




***
E, como cravo e canela,
a Cultura Popular
dá mais sabor na gamela.
Se o povo não se importar,
vou metendo meu bedelho
e não me apenem com relho...
É Cordel meu novo lar!...

Igual goiabada e queijo
o povo gosta da rima
que é gostosa como um beijo
quem estiver triste, anima.
Ser cordelista é uma sina
que me deu meu Pai do Céu,
pois na casa do cordel
moro desde pequenina.

É como churrasco e chima
cordelista aqui é trovador
cantando versos pra china
como um bom pejeador
o gaiteiro dando o clima
para encaixar a rima
do poeta e cantador

Já escrevi muita prosa
também poesia pura
mas que me deu alegria
em casa e também na rua
sem ferir ou magoar
sem a ninguém desencantar
foi o cordel com fartura.

Agora eu vou embora
Quero tirar o chapéu
pros versos de toda a hora
que cantam a Terra e o Céu
Se eu passar nesse teste
Rimando algo que preste
Troco o soneto pelo cordel


Ficarei bem afiada
e de todos a melhor,
nem adiante dar risada,
estou dando o meu suor,
por isso tô avisando,
no cordel vou cirandando
pra saber tudo de cor.

Não seja tão inocente,
fala num tom revoltado,
o companheiro de lado,
o Pai nosso, claramente
diz qual a sorte da gente
ele informa com clareza,
você pode ter certeza,
vai de novo acontecer,
esse nosso padecer,
lá não vai ter cama e mesa.

Amigo, tenha esperança,
o nosso Deus é bondoso,
e misericordioso,
não seja assim tão criança,
será feliz nossa andança.
“Assim na terra”, abestado
“como no céu”, é o recado.
No céu, em algum atalho,
numa frente de trabalho,
será esse o nosso lado.


Escreve toda a realidade
e apresenta a gostosa fantasia
tanto na mata como na cidade
ele forma ótima alegria
é criador do bem estar
que tranquilamente sabe doar
com a maior harmonia.


&&&&&

MINHAS ANDANÇAS
Marcos Loures

Nas andanças pelo mundo
Muita coisa encontrei.
Gente de todos os tipos
Nas terras por onde andei
Gente de amor profundo
Temente a Deus e ao diabo
Por tanto tempo são sei
Se devo estar enganado
Sei que esse tempo passado
Não foi de todo perdido
De certa forma cumprido
Na barca da minha sorte
Nas trilhas de minha sina
Na vida mais assassina
Que combina com passado
Que nega o nunca negado
Meu sonho de liberdade
Passeia pela cidade
E dobra, a cada esquina,
No remédio mais doído
O meu andar foi comprido
E meu destino cumprido
Na minha alma o comprimido
Da bula felicidade
Passando pelos volteios
Das curvas desse regato
Sei que nada mais que seios
Adormeceram meus retratos
De triste cavalgadura
Na mata, da noite escura.
Que mata, carece pura.
Como a pinga que bebi
No tempo que resisti
Na beirada dessa estrada
Que leva o nada a esse nada
Que comporta muita força
Do colo da menina moça
Ao cheiro da maresia
Cravando de poesia
O tempo mais assuntado.
Assustado companheiro
Não sei desse mundo inteiro
Mas sei bem mais que você
Pelo menos sei perder
O rumo no colo doce
Que essa morena me trouxe
Lá das matas do Pará,
Do cheiro dessa capina
Da terra molhada o gosto,
Brilhando no seu rosto
Feito pedra cristalina.
O campo que me alucina
É o verde da minha terra
Que me transporta, fascina,
E não acerta mais nem erra
Apenas aceita a dança
Da mais forte temperança
Que nunca arreda, criança,
No meio dessa vingança
Que é minha essa contradança
Que espalha, me dá sustança,
De encarar outro sermão
De saber mais desse chão
Que me pega, supetão.
Traz o sim confunde o não
E se espalha no sertão
Fazendo tal confusão
Que nem padre ou sacristão
Resolve e dá solução
Ao que pergunta meu povo
Para onde ele vai de novo
Se quebrarem mais um ovo
E não deixarem nascer
O futuro mais esperado
Onde quisera viver
Sem esse tal de volver
Sem essa de nunca ver
Que poderia saber
O resto dessa embolada
Que nada mais é distante
Trazendo o que era adiante
Como se fosse constate
O grito desse levante
Que me fez deu tal arrelia
Que cravado nesse dia
Foi de resto minha sobra,
Que rasteia feito cobra
Nas ondas desse que cobra
O que a gente não gastou
Somente a gente tentou
Mas, remediando a vida,
Nessa estrada mais sem rumo
Vou tentando ter meu prumo
Das dores faço um insumo
Que mantém meu caminhar
Por onde gente passar
Contando essa valentia
Vou com minha fantasia
De quem não quer sufocar
Nem precisa suportar
As marcas desse chicote
Dos que tentaram o bote
Não há mais quem que suporte
O peso desse grilhão
Que maltrata tanto a sorte
Que sufoca até a morte
E que mata o coração.
Quero dizer pra você
Aquilo que me comporta
Abra bem a sua porta
Não liga, pois não me importa,
O que quer que te contaram
Sou amigo nada tema
Por mais tempo que passaram
Mudar a história da gema
Que faz nascer um poema
Que se chama liberdade
Não creia nessa maldade
Desse povo mais safado
Que negam o já negado
Que pegam o caso encerrado
Para carregar de lado
Nas página do jornal
Que trazem nesse embornal
Para embrulhar mais você
Não deixe esse temor ter
Mais força do que devia
Muda de cavalaria
Esquece a cavalgadura
Senão essa noite escura
Vem de novo lhe cobrir
Não deixe que essas premissas
Nem se rezada nas missas
São os frutos das cobiças
Das gentes que, movediças,
Transformam o nosso sonho
Num pesadelo medonho
Daqueles que eu não me enfronho
Nem tento solucionar
Pois percebo nessa gente
Que se ver gente contente
Logo fica mais doente
Parece gente demente
Mas é um povo que mente
Difícil de acreditar.
Moço não dê mais assunto
Pra esse povo sem pudor
O que eles querem, e muito,
É transformar um doutor
De cara mais deslambida
Parece de mal com a vida
Tem jeito de enganador,
Pois então tome cuidado
Que esse povo safado
Tá querendo engabelar
Vendem-te como coitado
Esse cara mal lavado
Que não dá pra confiar
Esse sujeito é famoso
Por permitir mais o gozo
De quem gosta de levar
Da nossa propriedade
Quase toda, as mais querida.
Mesmo assim, sinceridade,
Gosta de aumentar a dívida
E não paga nada não
Deixando toda pobreza
A ver nessa tristeza
O fim de nosso país
Que não é mais meretriz
Aprendeu o seu valor
O valor de ser brasileiro
De correr o mundo inteiro
Com o orgulho altaneiro
De nosso novo janeiro
De ser bem mais verdadeiro
Sem deixar escravizar
Deixa de novo brotar
No meio desse pomar
A fruta mais melindrosa
Que perfuma como rosa
Que brilha nesse luar
Que nunca mais que se alcança
Que bela como criança
Faz do futuro essa dança
Que transporta na lembrança
A NOSSA FRUTA ESPERANÇA!

***