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QUE CANTEM...
Humberto Rodrigues Neto
Que cantem, sim, os poetas,
as praias bebendo mares
e as ondas sorvendo areias...
Que cantem, sim, as poetisas,
a brisa falando amores
e o vento violando folhas...
Que cantem, sim, os poetas,
o sol esmaltando as praias
e a lua caiando as noites...
Que cantem, sim, as poetisas,
berços dormindo silêncios
e mães rezando cantigas...
Que cantem, sim, os poetas,
anciãos gemendo ausências
e infantes sorrindo fadas...
Que cantem, sim, as poetisas,
rocios coando garoas
e insetos plagiando estrelas...
Que cantem, sim, os poetas,
besouros flertando luzes,
colibris bebendo flores...
Que cantem, sim, as poetisas,
o cárcere dos conventos
e as monjas que nunca amaram...
Que cantem, sim, os poetas,
no esculpir de cada estrofe,
no brunir de cada rima...
Que cantem, sim, as poetisas,
coriscos riscando o espaço
e oceanos babando espumas...
Que cantem, sim, os poetas,
colcheias chorando Schubert
e bemóis valsando Strauss!
Cante, sim, cada poetisa,
e que cantem os poetas
as glórias do Criador,
pois engastou-lhes no peito
não um córdio insatisfeito,
mas liras tangendo o amor! |