Flor de campina
Rogério Simões

Teu corpo
Leve, leve, como o vento!
Meu guizo
Correndo,
Tocando, atrás do tempo
E é qual espuma
Batendo
Dançando docemente
Como teu corpo
Que desejo e alento!

Teu corpo
Leve, leve, como o vento!
Por cima dos muros
Comendo amoras silvestres
É qual gesto
Que tão lesto
Não nos ocupa tempo!
Como este guizo
Tocando atrás do vento.

Teu corpo
Que canto,
Ao desafio com as aves,
É qual menina traquina,
Vermelha papoila do campo.

A liberdade meu amor,
Que a tanto guisa e alento,
É qual campina em flor,
Leve, leve, como o vento.

1981
(romasi)



FELICIDADE
Rogério Martins Simões

Felicidade
Passa
E quase não se sente,
Passa.
Sem passado
Nem presente.

Olhem!
Quase não se vê
Como a ausência
que não se lê.

Felicidade
Passa
Tão perto, tão rente
Junto de nós
Calada.
Colada levemente

Olhem
Quase não se vê
Como a tristeza que não se lê.

Felicidade
Passa
E quase não se sente
Passa
Mesmo ao nosso lado
E desaparece de repente.

1998



FOI NUMA MADRUGADA DE JULHO
Rogério Martins Simões

Foi numa madrugada de Julho
Quando as estrelas
se juntaram nos céus,
quando o sol teimava
em não arrefecer a noite,
e a lua irradiava
confundindo
as mãos dos namorados…

Andara embalado
no colo de minha mãe.
E ouvia serenamente
Na fusão das águas
O canto ameno que me embalava.

-Lembra-se minha mãe
dos pontapés que eu lhe dava?

-Recorda-se minha mãe
de me ouvir chorar,
Quando sem ver
me reconfortava
Passando docemente
a sua mão na barriga.

Ai como eu me sentia feliz
com as suas carícias.
Ai como era feliz
escutando o seu cantar.

Foi numa madrugada de Julho
Quando a lua espreitava
Quando a mãe terra
me chamava,
Rompi as águas,
E tinha à espera estrelícias
Majestosamente
espalhadas por seu corpo…

Foram tempos luminosos
quando a natureza me pariu
E me trouxe de volta os olhos
com que abracei de novo o Sol.

Lisboa, 29 de Janeiro de 2007



FORA DE TI SOU UM NOVELO
Rogério Martins Simões

Erguem-se as montanhas.
Perfilam as imagens.
Vêm através de mim,
ensina-me o caminho das margens…

Meu amor volta depressa
Tenho as minhas mãos tão pesadas
Que nem as mando poisar
Meu amor regressa
Tenho as mãos tão cansadas
E não as posso libertar.

Fora de mim sou um novelo,
que se desprende,
entre os dedos alinhados.
Fora de ti sou um elo,
que se prende,
entre os dedos desalinhados

Tenho as mãos tão pesadas
não as consigo desapertar.
Tenho as mãos tão cansadas
Que não as consigo soltar….

Salta para o meu cavalo de chuva
que se ergue à porfia.
Vem de um pulo só.
Leva-me contigo depressa

Meu amor regressa
Tenho as minhas mãos tão pesadas
Que nem as mando poisar
Meu amor volta depressa
Tenho as mãos tão cansadas
Que nem as posso libertar.

03-05-2006 15:30

(À minha companheira BETE que pinta
e com a tinta do seu amor suaviza a minha Parkinson)



MENTIA SE TE DISSESSE QUE MINTO
Rogério Martins Simões

Mentias se me dissesses… que pinto…
Não me esforço, peço ajuda, e tu vais
Ajeitas-me o nó da gravata… e o cinto.
Teus passos para mim são sempre mais…

Mentia era se eu dissesse que minto,
Que do meu corpo já não saem vendavais
Que os pés já me pesam e não os sinto
E que os meus passos para ti são demais.

E se te peso ao de leve e não quero
Tu bem sabes a razão do desespero
Não seja tamanha a razão do repeso

Pois se quis voar na ode de um poema
Irás encontrar em meus versos alfazema
Antes fosse manha a razão do meu peso.

10-08-2005 23:31



O barco partia à vela
Rogério Martins Simões

Éramos dois loucos apaixonados!
E descobríamos na noite
O que perdemos desencontrados.

O dia não passava
Ficávamos dispersos…
A noite desesperava…
Entre danças e copos
E ficávamos submersos
No fogo dos nossos corpos

E soprávamos as areias do deserto
Para esconder a cidade
Que espreitava à janela
Não havia tempo para as estrelas
O ardor soprava tanto
Que o dia cinzento era branco
E o barco partia à vela…

01-11-2006 22:56



OLHEM PARA MIM
Rogério Martins Simões

Olhem para mim,
Que o tempo tem razão
(hoje não!)
Há momentos
Em que o tempo pára
Como esta noite
Em que as estrelas do céu
Me falam de poesia.

E meus versos viram veleiro
Nada os impedem de viajar
Levam no mastro dianteiro
Este Tejo Marinheiro
Este Tejo feito mar

E o mar Oceano vira poema
Leva consigo o meu versejar
Este Tejo Mar de Prata
Carregado de Luar.

Amo a poesia,
Preciso dela para respirar
Tenho no peito Lisboa
Levo comigo Pessoa
E a saudade para voltar.

E já fui na caravela
Viajei por outras Nações
Agora que regressei
Avisto da minha janela
Estas terras de Camões.

Olhem para mim
E vejam como sou feliz!

14-11-2004 23:36:31



ONDAS ME VÃO LEVANDO
Rogério Martins Simões

Nestas tardes, vazias, ondas me vão levando
Nestas tardes tardias, nas ondas terei sofrido
Morto estarei se breve não estiver chorando…
Cedo estarei chorando; se tarde haverei morrido…

Homem, poeta, quimera ou sonho, até quando?
Aceito as tardes vazias e não me dou por vencido
Estou morto? Ou vivo num corpo que não comando?
Passos os dias sofrendo, de tanto sofrer dividido

E se a dor avançar, chorar não será humilhação
Quero combater meus choros desta atribulação
Quero esgrimir que o mau tempo traz a bonança

Erguerei barreiras para conter todas as marés
Que me travam as mãos e me tolhem os pés
E com elas erguerei uma fortaleza de esperança

05-03-2007 21:51



PÁRA
Rogério Martins Simões

Segredaste-me tantas palavras,
Esta noite meu amor,
Quando no quarto imperava o silêncio!
E disseste tantas coisas,
Em silêncio,
Que nada ficou por dizer!

Tu sabes que eu gosto do silêncio!
De respeitar o silêncio,
Mesmo que ele incomode.

Incomodam-me
Mais os estados de “não alma”,
Que perturbam o silêncio,
Com palavras ditas de forma não calma.

Eu sei que não conheces
As “não palavras:
Que me ferem os tímpanos,
Que não acalmam!
Que me pulverizam o silêncio
Aniquilando o alento!
Que me cortam a respiração
E me deixam frustrado,
Cabisbaixo,
Adiando ou extinguindo
Para sempre a inspiração!

Que génio teriam os poetas
Se lhes parassem a respiração,
O pulsar e a pena?!

De que forma?
Com que sentido,
Teriam estas palavras,
Se as minhas palavras
Fossem desprovidas de qualquer sentido.

Sentidas foram as tuas palavras
Quando me disseste,
Sem falar,
Estas palavras:
Pára de escrever!
Porque as palavras te fazem sofrer!
Pára, vem descansar!
Para o corpo retemperar!

Mas, meu amor,
O meu descanso
Está nas palavras que não comando!
E se sofrer eu sofro
Escrevendo
Pior sorte seria
Não escrever chorando.

17/05/2004



QUISERA ANDAR DE CARROSSEL
Rogério Martins Simões

Quisera andar de carrossel
Com um sorriso de criança que ri
Rosto rebuçado, melaços de mel
Laivos da festa que resta em ti…

Num dedo prendo o balão,
Com outro seguro o corcel
Soco a bola com a mão
As mãos, o rosto e a testa
Besunto-me todo com mel.

Solta-se dos dedos o balão
Que voa a caminho do céu
-Mãe! Vai-me apanhar
Um sorriso igual ao seu…

-Meu filho a mãe não sabe!
Ler, nunca aprendeu:
A mãe vai procurar
O balão que se perdeu…

-Mãe que sabe escutar,
Meus choros em seu coração
Abençoada o seja minha mãe
Por tudo o que foi e me deu!

Rodopiam as lembranças da festa
Pára o movimento ondulante
Sujo-me de novo a cada instante…
Sem rebuçados com sabor a mel
Mas… Brinquei tanto no carrossel….

2005-10-20



SONHOS DESFEITOS
Rogério Martins Simões

O Sol resplandece e a água espuma
As ondas vagueiam e o barco desliza
Sobra no meu peito uma dor bruma
Que se esfuma nas colinas da brisa

A minha mão sobressai e já foi calma
O meu papel reproduz o adverso
Deixa escrever o que chora a alma
Acalma, vagueia e ensaia um verso

A escrita azul tem uma mancha preta:
Letra miudinha que desenha a caneta.
Do bloco de notas gotejam os defeitos

E se mais não encontrar sonho vão…
Fiquem os versos que redigi com a mão
Colorindo sonhos, com sonhos desfeitos


Lisboa – Tejo – 14 de Agosto de 2007
Concluído em 16 de Outubro de 2007



TREM AZUL
Rogério Martins Simões

Continuadamente desço…
Continuadamente subo…
Andas? Que sabes de ti?
Ordena às estrelas que me
Tragam o céu
Talvez apareça por aí…

Escuta, não és tu, sou eu…
Que sabes de mim
Se de mim eu esqueço
E majestosamente me
Transformei
Num ponto de luz

Olá! Quem és tu?
Não te conheço…!?
Ontem parti alquebrado
E por certo diria,
se permanecesse ali,
Que me esforcei!
Espera. Eu sou!

Estou de novo ao leme
Resta-me pouco.
Não resta nada…
Irei pendurado num trem
azul…
Queria escrever um soneto
Estou exausto,
fica para depois….

08-07-2005



VOLTEI!
Rogério Martins Simões

Venho dos limites do tempo
De uma galáxia qualquer
Já fui mar, já fui vento
Agora sou pensamento
Aparado em dado momento
No ventre de uma Mulher!

Meu corpo é magistral!
Brutal! Perfeito! Soberbo!
De início não era verbo
Agora sou o verbo ser

Tenho comigo segredos
Segredos do universo
Transporto no corpo recados
Escrevo em forma de verso.
Venho dos limites do tempo
Não sei o que fui e sou:
Deserto? Nascente?
Já fui Norte, já fui Sul
Pó astral, mar azul!
Luar, estrela cadente.

Eu me vou!
Partirei num cometa qualquer
E serei novamente pôr-do-sol.
Cor-de-rosa, aloendro, malmequer!

Voltei...Já cá estou…
Agora sou pensamento
Nascido em dado momento
Do ventre de uma Mulher!

23-09-2004 18:39
Aldeia do Meco



ESPERANÇA
Rogério Martins Simões

Entrelaço os meus dedos nos teus
Vivas ilusões, ténues lembranças
Foram inatingíveis os versos meus
Outono breve, poucas esperanças

Ateámos o fogo nas estrelas dos céus
Mapeávamos nossos corpos de danças,
Encontros e desencontros, não são réus
Presos não estamos, procuro mudanças

Agora, adorno enigmas, bordados de cruz
Cintilam horizontes de esperança e luz
Meu fogo arde no mais puro cristal

E se na alquimia busco a perfeição
Respondo às interrogações do coração
Descubro no amor a pedra filosofal.

Lisboa, 02-10-2006 23:58



ENVOLTA EM SILÊNCIOS E FLORES
Rogério Martins Simões

Envolta em silêncios e flores
Como se as flores te cobrissem de pétalas
Eu te chamei deusa.
Quando o meu olhar era de cristal.
Percorriam os teus seios, colar escarlate,
Desvarios recortes de porcelana
Estavas linda!

Partilho estes jardins de sombras
deliciosas
Contagiam-me as serenas manhãs,
os frutos selvagens
e enamoro-me das estrelas.
Noite fora sou um viajante
Percorro silêncios,
escuto os meus passos nas vielas.
Que seria de mim se não te
reencontrasse!

Sabes a morango selvagem!
Sabes a cravo e a canela!
Se partir voltarei
Envolto em luz
Te cobrirei de pérolas
(Te chamei de musa)
E serei como a brisa,
Aragem,
Perpétua e ondulante
O sol penetrante na tua janela.

24-03-2006



ELEVO O ESPÍRITO
Rogério Martins Simões

Elevo o espírito! Tenho os olhos perto
Só o pensamento não o sinto tremer…
Entoo, num canto, um canto encoberto
O que a tremura não me deixa fazer.

Volto à poesia na catarse que liberto
Chegaste, assim, ao impasse quefazer?
Desdobro e retomo o amanhã incerto
Faço de conta que se vive sem viver?

Aperto as minhas mãos para as libertar
Vejo-as estremecer! Já não sabem parar
Salva-me poesia, não me deixe ficar mal.

Volta poesia, pois de chorar tudo chorei.
Volta! Que na dor, pela dor não morrerei
Quanta melancolia têm estes olhos de sal!

Meco, 09-07-2007 20:03



DIÁSPORA
Rogério Martins Simões

Gosto de viajar para casa.
Regressar é um desejo de quem parte
e não quer ir.
Vou!
Já fui tantas vezes na aventura
calcetando pedras,
dormitando em tábuas,
onde me perco sem contemplações,
encalhando nos confins das terras,
amealhando uns tostões.

Tivesse asas para acompanhar o
pensamento
porque as asas só se levantam tendo
penas.
Penas tenho!
Pena não tenho! Da fome e dos xailes
pretos…

Deixei em casa corpos em metamorfose,
silêncios e silvas,
que crescem entre muros e dão
amoras…
Comprei a última tesoura de podar
Tenho a barriga a dar horas
E um sonho para voltar...

A vinha ficou brava…
A casa fechada e a horta
são agora um pasto de chamas.
- Aldeia porque me chamas filho
se só tive madrasta!?
- Nação porque me pedes o voto
se não te sei ler!?

Gosto de regressar mas não posso
ficar…
Falo agora esta meia língua estranha,
porque já esqueci a minha…

Volto a percorrer as estradas
que me afastam do que resta...
Levo uns trocos para a viagem
e quando me virem vai ser cá uma
festa….
Vou petiscar couratos
e beberei uns copos
com os rapazes do meu tempo.
Regressarei um dia para cuidar da
vinha…
Por agora durmo a sesta…

Voltarei para cumprir a promessa.
E beberei nos corpos deixados,
um néctar guardado,
entre fragas e pinheiros…
Verberarei palavras de fel,
embrulhadas com cargas de explosivos
abrindo estradas,
nos caminhos que me deixaram partir
Agora tenho de ir…

Regressarei à casa nova que construí
e em cada degrau
limparei as lágrimas definitivas
da minha saudade.
Vou partir mas tenho de regressar…

Oh Pátria amada,
onde se acolhem os sonhos do meu
regresso,
porque me deixaste partir?

Oh Pátria amada deixa-me regressar
ainda que só te enxergue,
no que resta,
dos penhascos e das pedras pretas.

Quero todo o barro, granito ou lousa
Quero a água cristalina que emergia das
fragas.
Quero depositar uma coroa de rosas
nas campas rasas dos meus pais.
E um coroa de espinhos nos despojos
dos que me obrigaram a seguir…

Sonhei voltar.
Não voltarei para partir…
Não voltarei a sonhar.
Vou ficar
Tenho filhos e netos neste lugar

Retalha a saudade o que resta do meu
corpo!
Viajarei gavião….
Por agora recebo notícias do meu país
- Dizem que as motas todo-o-terreno
debutaram nas silvas da minha aldeia…

E se a língua portuguesa é a minha raiz
profunda,
afundo as minhas mágoas por não poder
regressar,
Porque, agora, regresso, escreve-se
noutra língua
e eu já nem sei o caminho de retorno..
8/03/2007



Destino ou Coragem
Rogério Martins Simões

Deixei para trás o meu ego
Deixei o sonho segurar o tento…
Quis Deus ou o destino cego
Que o destino fosse tormento

Ao sonho e à coragem me apego
Gavião deixa passar o vento…
Sou náufrago em desassossego
Destino ou coragem sustento.

Não! Não mais quero o desespero!
Não negoceio contigo e não quero!
Sou trama e urdidura forte…

E se o destino a coragem revela
Partiremos juntos num barco à vela
Pois na coragem se combate a sorte…

Lisboa, 29-08-2006 22:36



COBRI DE ROSAS
Rogério Martins Simões

Cobri de rosas
A tua rosa
O teu botão.
Abri a rosa
Cortei a pétala
Pétala a pétala
Enchi o chão.

Mas se ao menos
O teu rosto sorrisse
E a tua boca
Dissesse palavras
De ternura:
Eu te daria
De novo rosas
Formosas
E em botão.

1987
Caderno Uma Dúzia de Páginas de Poesia nº 41



Bendita Sejas mulher
Rogério Martins Simões

Nos caminhos que trilhamos renascidos
Certamente já esquecemos a distância
Que prolongam os caminhos percorridos
Irás encontrar na minha ânsia
Estes trilhos marginais mas tão sofridos

Não me fico por silêncios
Mas, meu amor, eu te digo
Bendita sejas mulher
A eternidade é estar contigo
Bendita o sejas por ser
A razão do meu viver

Os ventos são adversos
Maior porta de abrigo, eu, não vi
Terá o céu no acaso
Tamanha luz no firmamento
Sem ti?

Repara no sentido dos meus versos
São cartas de amor que não escrevi…
Palavras adultas fora do prazo,
Construídas no encantamento,
Sem pressas, aqui!

Por isso, de novo, te digo
Bendita sejas mulher
A eternidade é estar contigo
Bendita o sejas por ser
A razão do meu viver.

24-11-2005



Cumplicidades
Rogério Martins Simões

Observei-te, estavas linda!
Bonita, como a rosa em botão!
Não te toquei, estavas ainda
Longe no teu olhar - eu não!

Afinal não te era indiferente.
Mas enfim, lá por dentro vias
Que havia em mim algo diferente
Nos locais para onde ias.

Para compensar o tempo ido
Prometias em pensamento
Recuperar o tempo perdido
À força de um sublime momento.

Amor! Estavas tão linda
Bonita como a rosa em botão
Não te toquei, estavas ainda
Perto do meu olhar - tu não!

Finalmente teu coração reparou
E descobriste que eu existia
Teu amor em mim encontrou
E… foi tão lindo esse dia.

E foram tão longos os abraços,
Carentes, infinitos e diferentes.
Foram estes os nossos laços
Afinal não éramos indiferentes…

2003
Caderno Uma Dúzia de Páginas de Poesia n.º 41
E colectânea de poemas”INDEX-POESIS”
(ISBN 972-99390-8-X e Depósito Legal 249244/06)



CORRO EM SENTIDO CONTRÁRIO
Rogério Martins Simões

Corro em sentido contrário
Desço o rio a pé, molhado à cintura
Quem me entende?
Quem me deita?
Quem me estende?
Quem me aceita?

Seco a cabeça no limiar da secura
Deixem correr o rio…
Que me entende!
Que me ajeita!
Que me estende!
Que me aceita!

Aceito o colo da ternura
Nado numa pista de cinza
Estou cansado
Das falsas partidas…
Prometidas
Incumpridas
Desgastadas
Ando aos recuos
Ao contrário das vistas…

Vistas as coisas, estamos nus…

O mundo é dos vestidos,
Compridos,
Rasgados
Comprimidos
Decotados
O mundo é dos modelos
Dos esbeltos e dos belos
Das farsas
Dos comparsas…

Tiraram-me as medidas…
Encurtaram as pistas…
Recuei
Minguei
Encontrei a loucura...

07-10-2005 18:24



Amo-te Lisboa virada ao Tejo
Rogério Martins Simões

Dizem que um dia alguém cantou…
Que por amores Lisboa se perdeu,
Por amores se perde quem lá voltou
Por amores se perde quem lá nasceu.

Dizem que um dia alguém contou…
Que uma moira cativa no Tejo desceu…
Por amor, Lisboa, a moira libertou,
De amores por Lisboa a moira morreu.

Juntaram-se os telhados enfeitiçados
Apertadinhos os dois e entrelaçados
Num fado castiço numa rua de Alfama

E o Tejo que é velho beija a Cidade…
Morre-se de amores em qualquer idade
Perde-se por Lisboa quem muito a ama!

Lisboa, 20 de Junho de 2006



BENDITA ROSA, MIMOSA EM CETIM
Rogério Martins Simões

Recordo em ti, meu amor, bela rosa
Rosa tua em ti, um dia eu amei
Estavas tão bela e harmoniosa
Nem pétala de rosa, em ti, anulei…

Rosa inteira, para sempre sejas ditosa
Permaneces linda como te encontrei
E se em meu corpo teu corpo repousa
Nem pico de rosa, na rosa, eu achei.

Rosa alvorada a florir no meu dia
Tu és o cântico da minha poesia
Bendita rosa, mimosa em cetim.

Pois, se o meu talento está no teu amor
Ditosos os seres que se mantêm em flor
Bem-cheirosa és tu rosa no nosso jardim!

24/08/2005



ÀS HORAS NA BATOTA POR AMORAS
Rogério Martins Simões

Andámos tanto tempo agarrados às horas
Pendurados nos ponteiros e fazíamos batota
Quando amarrados às doze comíamos amoras
Das regras do tempo fazíamos letra morta

Por vezes os meios-dias eram vagabundos
Voltávamos a encontrar as seis e meia
Não deixávamos abalar os segundos
E quando logravas partir era lua cheia

Sem ti nos ponteiros o relógio parava
Quando o ponteiros despiam as horas
Não havia horas, sempre te encontrava

Hoje vi-te à janela eras toda cidade
Percorriam o teu corpo as vielas da madrugada
E trazias nos cabelos a noite
Espreitando a tua lua sorridente…
Justamente hoje
Quando me apeteciam as amoras…
26-10-2005 23:19.

Poema dedicado à grande poetisa Natália Correia



AMANHÃ É DIA DOIS
Rogério Martins Simões

Carrego em mim estes dias marginais
Que se arrastam mas parecem iguais,
Tão diferentes o são, pois,
Até ao escrever alago as rimas.
Amanhã é dia dois!

Limpo as minhas mãos transpiradas
Esgota-se a fonte das minhas lágrimas
Tenho novamente as mãos suadas
Porque amanhã é dia dois…

Já passaram por mim tantos dias
Mas estes, ao passar, fizeram doer
Que diagnóstico me fará mais sofrer
Pois só de pensar pensando sofrias:
Amanhã é dia dois!

Ide oh tristezas, pois, quero que rias,
Deixai comigo o meu corpo que resta
Os exames na mão, com esperança esta
De voltar a chorar por mais alegrias.
Passa depressa oh dia dois…

01/08/05



A DOR QUE SE TENTA ESQUECER
Rogério Martins simões

Quantas vezes
Dizes esquecer,
Mas não podes esconder:
A traição que me rasgou o corpo.
O corpo que te tapou o gesto.
O gesto que te alentou a vida.

Quantas vezes
Soletras ódio.
O ódio que destrói a alma.
A alma que sustém a vida.
A vida que retém a dor.
A dor que me sobra tanto.
O tanto que te dei
E que canto.

Quantas vezes
De luto me visto.
Visto dar sem receber
Receber nada, sem nada ter
Tenho a dor que não quis
- Quisera alguém sofrer?

Quantas vezes
De cor me viste…
Visto que só luto me deste.
Deste amor sem amar
Amar sem amor não compensa
Compensa perdidamente ficar?
Ficar?
Só quando o amor apareça.

Quantas vezes
Hesitei e não parti.
Parti sem coragem e voltei
Voltei a morrer e morri
Morri mas ressuscitarei.

Sabes:
O amor perdido por vezes
À espera que algo aconteça
Retém o corpo por meses
E nós ficamos sem pressa

Quantas vezes
Deveria ter partido
E mais partido fiquei…

Maio de1979
Publicado
Caderno “uma dúzia de páginas de poesia n.º 41”

 

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