DISTÂNCIA ENTRE NÓS
Sandra Fayad

Há uma distância entre tu e eu
Que não se mede em quilômetros
Ou horas que o carro percorreu.
Tão pouco é medida em centímetros
Ou segundos que o atleta venceu.

Entre nós a distância é de valores
Limitada por barreiras invisíveis.
Tem diferentes formas de amores
Palavras há tempos inconcebíveis
Com sons ruidosos e novas cores.

Para ti distante é o tempo futuro.
Meu presente faz parte do passado.
Entre ambos ergueste um muro,
E segues apenas de um lado
Mais veloz, porém menos seguro.


Nos auto-serviços vais com afã.
Queres bigs, fanta MAIS quarteirões.
Tua linguagem me parece anã,
Mas sigo à risca tuas orientações,
E da janela caem tortas de maçã.

Ainda com o carro em movimento
Desembrulhas tudo com facilidade.
Abocanhas pão sovado, regas condimento,
E enquanto percorremos a cidade,
Comes fritas e refri vais sorvendo.

Fascinada com tudo na verdade,
Percebo como é difícil alcançar-te,
Mas mantenho a pose típica da minha idade
E decido ainda aconselhar-te:
-Come devagar, para melhor digestibilidade.

(Diplomada com o título “Fanta+Quarteirão”, pela classificação com louvores, na Categoria “Consagrados”, da III Olimpíada Cultural -500 anos da Língua Portuguesa no Brasil, 1º semestre) de 2006).



A MUSA E O PAR
Sandra Fayad

Essa loucura que nos domina
É prenda que a vida oferece.
Onde estamos, para onde vamos?
Nada interfere no que acontece.

Os sonhos são suaves, úmidos.
Os ventos sopram na mesma direção.
Os dedos catam letras de amor
Para compor as frases da canção.

No teu céu que é meu também
Estrelas caminham com as nuvens,
Anjos dançam e cantam amém.
.
Há um ponto definido no universo
Onde serei única musa do teu poemeto
E serás único par para meu dueto.



ACREDITA!
Sandra Fayad

Enxuga dos teus olhos em cartaz
O sofrimento por quem não te quer.
Não te ilude, meu rapaz!
Tua dor não tem causa em mulher.

Vem de dentro, do teu pensamento.
Nasce da tua ânsia e insegurança,
Do escorregão que, em algum momento,
Tornou frágil e oscilante a esperança.

Afasta esses temores infundados,
Eleva teus desejos ao trono do amor
E pulveriza alegria para os lados.

Canta a felicidade de estar contigo.
Atenta para a suavidade de uma flor,
E vem curtir uma balada comigo.



AINDA BEM
Sandra Fayad

Ainda bem que há céu sobre nossas cabeças
E terra sob nossos pés...

Que pena que vivamos tão pouco: só cem anos!
E que muitos se vão sem receber cafunés
Sem acreditar nos benefícios dos cafunés...

Ainda bem que sabemos que nada levamos:
Nem o que colhemos, nem o que plantamos.
Apenas o cobertor que esteve todo o tempo sob nossos pés.



AMACIANTE SENSUAL
Sandra Fayad

És centenas de fotos sensuais
Que enlouquecem as mais belas musas.
Selecionas o que há de melhor ti,
Enches uma cesta de aptidões pessoais
E te delicias de prazer, quando as usas.

És milhares de imagens de lugares
Em super produções de última geração,
Cuidadosamente selecionadas,
A causar emoções espetaculares
Em momentos de grande comoção.

És milhões de letrinhas simpáticas
Formando palavras e frases de efeito,
A chorar por um amor perdido, distante...
Que fazem de tuas fãs umas fanáticas
Na competição para ocupar o teu leito.

És lobo insaciável, esperto, poderoso.
Conheces bem as fraquezas femininas.
Tua meiguice tem pele de tartaruga
Sob a qual obténs retorno generoso
De milhares de ‘coroas’ e meninas.

(Inspirado no artista e poeta português Antonio Santos, o Tó)



AMOR COXO
Sandra Fayad

Se, por insanidade, eu te mandasse embora,
Teria que chorar sozinha dobradas lágrimas
E sorrir – solitária - um sorriso chocho.

Se, por insensibilidade, partisses agora,
Meu amor atlético ficaria coxo,
E meu sobrado desabaria, tora por tora.

Minhas mãos vazias sentiriam o calor das tuas,
Nos meus ouvidos, tua voz sonora diria:
“Eu Te Amo”... a cada meia hora.

Mas se alguém te pegasse de jeito
E quisesse fazer de ti a sua escora,
Aí... não! Eu não compareceria...

Ao teu bota-fora.

Comentário:
Esta poesia descreve a relação de amor entre pessoas de origem idêntica, mas de cultura diferente, com característica de transitoriedade (inspirado em Ali Haddad).



AMOR VIRTUAL
Sandra Fayad

Por e-mail, envias beijo salival.
Examino sua consistência
Para saber se saiu da tua boca,
Se criaste um wink original,
Ou se é ataque de virulência.

No Messenger te vejo on-line.
Exploro detalhes da tua imagem,
Dedilho o teclado, movo o mouse.
Comparo com tuas palavras.
Aproveito enquanto não me fitas
E peço que me aguardes. Pause!

Prossigo em nova checagem.
Clico no teu cartão de visitas,
Elimino hipóteses, por amostragem.
Detetive, paranormal ou guardiã,
Ainda pergunto se tens tatuagem.

Aceito ligarmos a web cam.
Agora sim! Pareces real...
Mas ainda pode ser montagem...
Comparo com fotos anteriores:
Convencem! Há semelhança.

Por fim, chamas pelo Skype.
Já sinto mais segurança.
Voz coerente com as imagens,
Com certeza do mesmo naipe.
Se é que não são dublagens...

Sonolenta, me pergunto:
Será que são miragens?

(Todos os dias os noticiários dão conta de enganadores e novas formas de enganar usuários na Net. A paquera virtual é o alvo mais vulnerável. A poesia mostra alguns recursos disponíveis para não cair nos golpes.)



Amores Virtuais
Sandra Fayad

Imagino-te sensual, sensível, carente
De cada vez mais amor, mais e mais...
Pela beleza, és eternamente apaixonado.
Pela paz, guerreiro irreverente,

Portando bandeiras das causas sociais.

É, sem dúvida, o amor teu ponto forte.
Aquele que se foi, tirando-te a paz,
Deixando-te sem porto, sem um norte.

Ah, se me coubesse, se eu fosse capaz
De matar essa bactéria que te conduz à morte,
Tornar-me-ia tua amada deusa... em cartaz.
Bsb, 20/02/2007
(Inspirada no blog do poeta português To;
participou da Ciranda com o mesmo título).



ARTESÃ
Sandra Fayad

Nem sabes o estrago que fazes no meu coração!
Meus olhos (tristes) sorriem à tua imagem.
Nos meus sonhos, és constante perseguição.
Do meu filme, és o principal personagem.

Vejo-te sempre e tão bem iluminado
Em cada canto da face nua exposta,
Ofertando sorridente cada bocado
Da beleza descoberta em cada encosta.

As tentativas de fugir de ti são vãs...
Como um imã de pronto me atrais de volta
Para mais um soneto da minh'alma artesã.

Mesmo que atrás de ti haja forte escolta,
Não perco a esperança de apaixonada fã
E armo-me das letras para a reviravolta.



CRUZADA INSETICIDA: PAZ
Sandra Fayad

Palavra de ordem nos tempos atuais,
PAZ é o que o povo comum quer sentir.
Tantas dores injustamente planejadas, expostas
Em regiões, metrôs, aviões, arraiais,
Com mísseis e bombas arrasando a vida
Destruída sem perguntas ou respostas.

Palavra suave, em versos, saudada;
Cantada em templos, há muito desejada
Não chega, porque dela não fazem caso
Os que lançam pessoas na roleta russa
E em milhares atiram por sorteio, ao acaso.

Palavra presente em inúmeros relatórios,
Proposta objeto de fóruns internacionais,
Em mesas de gente com poderes decisórios
Que nada concluem para viabilizá-la,
Porque ali só se exibem credenciais.

Palavra lucrativa essa tal de PAZ.
Vende ilusões de sistemas democráticos,
Falsas verdades, supostas liberdades...
Em seu nome se mata cada vez mais,
Arrasam cidades, destroem história,
Desmancham tudo como vendavais.

Não valem mais os dez mandamentos,
Nem “amai ao próximo como a ti mesmo”.
Querem desobedecer ao Corão
E do Bagvata Guita os ensinamentos,
Venerando Fortuna e Poder, em oração.

Poetas, através dos nossos versos
Conclamemos toda a gente sofrida
Da terra, nos pontos mais diversos
Para, numa grande cruzada inseticida,
Detetizar os inimigos da VIDA.



CANDANGA
Sandra Fayad

Para quem não sabe ou não se lembra,
Brasília só tem duas estações.

De Outubro a Maio - que maravilha!
Nuvens escuras caminham no céu constantemente
à cata de galhos secos e terra nua
Para semear, em cada lugar, um verde diferente.
Previsões metereológicas
Só funcionam as gerais;
Nem tente prever as locais.
É que sob o Sol escaldante -
Veja! Ali adiante... está chovendo demais...

Depois chega o clima de deserto
para dominar o cenário,
impondo a tudo seus tons marrons.
Não tema! Prepare, ao ar livre,
festas de aniversário, casamentos
ou quaisquer outros eventos.
Sobretudo, aprecie a beleza que vem do horizonte.
Acorde cedo - veja o espetáculo do sol nascendo
Ou - mais tarde - desaparecendo
atrás de um pequeno monte,
numa maravilhosa mistura de cores,
como se fora uma salada
de muitos sabores.



CHEIRO DE CAFUNÉ
Sandra Fayad

Se eu fosse uma estrela brilhante no céu,
Pediria a Deus que perfumasse cada ponta com cheiro de amor.
Se eu pudesse brilhar na terra, acesa de muito carinho,
Escreveria seu nome em letras encarnadas
Nas curvas do meu caminho.
Se eu fosse uma estrela cadente-candanga,
Ao amanhecer te convidaria pra visitar o Parque Nacional.
Vamos caminhar nas trilhas de verde degradê,
sem pressa e em silêncio - com passos de cristal -
Pra não assustar a fauna em seu ninho,
Enquanto o sol mesclado de azul-dourado
vai se escondendo no crepúsculo do cerrado,
A contrastar com a lua branca despontando do outro lado.
A paz da noite chegando de mansinho
Tem cheiro de cafuné sem pressa.
É hora de voltar pra casa,
Pois agora o Lobo Guará virá caçar.
É melhor ficar no sofá bem juntinhos,
Ouvindo Roberto Carlos cantar:
"Eu sou aquele amante à moda antiga,
daqueles que ainda mandam flores..."
E na madrugada pálida e fria,
Róseas taças de vinho nos farão levitar
Abraçados no embalo da canção.
Dos beijos ardentes prateados
E da mistura dos nosso corpos trançados,
Como as ramas do canteiro de poejo,
Entraremos num filme dos anos dourados
Para sair do outro lado
Saciados do nosso desejo.
(Nota: A expressão "cheiro de cafuné" é criação do meu amigo Alexandre Fejes.)
10/12/2005)



CHURRASCO NA LAJE
Sandra Fayad

Em meados de setembro,
Professores do Candanguinho
Conheceram a laje da Taty,
Em seu novo sobradinho.

Contrataram churrasqueiro,
Que preparou tudo na hora:
Vinagrete, arroz carreteiro,
Mandioca, um pouco de flora,
Banana, limão-de-cheiro,
Refri, cervejinha e cachaça.
E tome carne: assa! assa!

Mestres em tempo integral,
Deixam marcas indeléveis
Na formação do colegial,
Apurando seus sentidos
Para os caminhos do areal.

Ensinam História e Geografia,
Matemática e Redação,
Música e Língua Estrangeira,
Ciências e Ortografia.
Empenhados ainda estão
Na abnegada transmissão
De valores, que acreditam
Existirem nas trilhas invisíveis,
Que do céu ao mar creditam.

Muito séria essa moçada!
Riem pouco em seu tempo.
São jovens bem comportados
No meio de um passatempo.

Belos homens e mulheres
Com a vida a desabrochar.
Incansáveis trabalhadores,
Que nem podem se permitir
Um tempo para suas dores.

Reis, Heróis e Sacerdotes
Loucos, Crápulas e Torturadores
Artistas, Anônimos e Caças-Dotes
Mendigos, Serviçais e Doutores
Mães e Pais Zelosos... ou Ausentes.
Todos têm, em sua história, relatos
Com um professor presente.

Por ocasião da reforma da casa, a Taty fêz um terraço a céu aberto, que chamou de laje, porque ainda não havia estrutura de lazer, além do piso em cimento grosso. Para inaugurá-lo, convidou os colegas professores, que se cotizaram e alugaram tudo. Enquanto a festa rolava, fiz a poesia, que foi lida por uma das professoras e levada para ser afixada no mural da escola).
17.09.2006



DE OLHO NA ESTRELA GUIA
Sandra Fayad

Abraços efusivos,
Sorrisos, alegria,
Fogos, muito brilho,
Encontros, emoções...
Glamour que se repete
Ou se cria
Simultaneamente,
Na festa de bilhões.

Há tantos que comemoram
Em perfeita sintonia.
Braços estendidos
Por todas as nações
Na data histórica,
Que assinala a travessia
Eleita pela cristandade
Para as suas relações.

Mando mensagens,
Atendo ligações,
Compro presentes,
Programo viagens,
Embarco na sinfonia
Dos bons remetentes.

Envio-te um abraço
Com muita euforia,
E desejo que dia-a-dia
Melhores teu cadastro,
Obtenhas vantagens
E sigas saudável
De olho no rastro
Da estrela guia.

(Formatada e declamada por Celso Brasil, Diretor Cultural da ABRALI- 600 audições/leituras-dez/06)
http://www.sandrafayad.prosaeverso.net/audio.php?cod=1674



DOIDEIRA
Sandra Fayad

Meus pensamentos fazem trajetória no espaço,
Percorrem ruas e avenidas da cidade,
Sobrevoam árvores, viajam com os pássaros,
Seguem as rotas que na mente eu traço.
Nesse caminho que te busco,
Sinto o frio cortante dos ventos marítimos
E o calor ardente das queimadas
Por onde passo...

Meus sentimentos brotaram de terra fértil
São flores delicadas em constante metamorfose.
Alimentam-se, noite e dia, da esperança insana
De juntar meu corpo ao teu, em perfeita simbiose,
Numa superfície plana
Como um cilindro, pelo chão a deslizar...
Embebidos na adega do prazer intenso
Até a última dose...

Hei de te sentir envolto nos mesmos desejos ardentes,
Ver-te agir como o mais irresponsável dos mortais...
Solta essas amarras! Quebra os elos que te prendem!
Vem sentir o sabor dos meus beijos inconseqüentes,
Que de ti dependem!
Experimenta a leveza dessa doce loucura!
Troca de valores, substitui teus símbolos por outros
Diferentes.
Nesse momento único que será nosso
Somente.

04/02/2006



DOMINGANDO...NA W3
Sandra Fayad

Domingo!
Primavera de mais de mês,
Calor que desanima,
Secura que racha a tez.
É domingo solitário,
Que enfumaça meus pés
No asfalto da W3.
Sol que frita os miolos,
Têmporas enxaquecadas,
Olhos espelhados, confusos,
Aguados de suor,
Nas faixas bem pintadas
De amarelo.
De branco, nuvens me olham
Sem ameaça:
Não vão se sujar de graxa,
Tão cedo.
Olho uma, outra e outra mais.
Que horror!
Nenhuma passa ou caminha.
Parecem dormir e sonhar
Com estrelas que não quero.
Agora quero é ver desabar
Cachoeiras celestiais
Que domingo é este?
Já é demais!

Bsb, 28/10/2007



MÃE,
Sandra Fayad

Quando te arrebataram daqui
Não era um tempo qualquer.
Estavam meus dias sedentos
Da tua presença, mulher.

O susto me deixou atônica
O vazio ocupou todo o espaço.
Perdi o ritmo, a direção e o prumo
Senti um misto de dor e cansaço.

Pressionada pelo agressivo sistema,
Fui rodopiando no rodamoinho
Para sobreviver no novo esquema..

Hoje meu caminho acaba em nada
Na frustrada busca pelo paraíso perdido
E chora minha alma, descompassada.

11/05/2006



MEU PAI
Sandra Fayad

Eras enorme e estrondoso como um trovão
A assustar-nos em noites de tempestade.
Foste o Lobo-Mau dos meus bailes em Catalão.
Entravas em casa como um soldado a marchar,
Pisando as flores que cobriam nosso chão.

Eras herói a nos defender dos malvados parentes
Que, na tua ausência, decidiam corrigir-nos.
Foste a garantia de que não ficaríamos carentes
Dos mantimentos trazidos em sacos, caixas, tonéis,
Que entregavas à mamãe como se fossem presentes.

Eras temido por crianças, amigas, namorados.
Ao sinal da tua presença, todos desapareciam.
Foste o carrasco dos nossos programas animados,
Das nossas gargalhadas estridentes e espontâneas,
Que escondíamos para não ser castigados.

Eras mais forte e corajoso que um touro na arena.
Enfrentavas o tempo e peso, a distância, homens e feras.
Foste um semideus na nossa infância terrena.
A segurança da tua proteção nos encorajava
Às traquinagens, que agitavam a cidade serena.

Hoje te vejo assim miúdo, indefeso, fragilizado.
Dói-me a humildade que te desejava outrora.
Brotam-me lágrimas ao teu olhar molhado.
Cansam-me os braços amparar-te os passos.
Arde-me o desejo pelo teu jeito estourado.

Teus noventa anos te dão todo o direito:
Relata a qualquer um tuas vitórias e derrotas.
Teu futuro é a tua história contada do teu jeito.
Tuas testemunhas são os amigos que renascem nos sonhos
E te despertam, minimizando a dor que sentes no peito.

Doente, cansado...

01/09/2005 23:33



PRÉ- VERÃO
Sandra Fayad

Na velocidade máxima, o ventilador
Faz cócegas no meu corpo ardente.
No insuportável desconforto do leito
Me desalinhado no ninho de calor.
– Ai, que ar quente!

No limite mínimo da capacidade,
Pulmões, em descomunal esforço,
Sem forças, de O2 sentem saudade,
Querem gotas brotando do ar.
- Cadê um poço?

Já choveu no começo da primavera,
Até antes disso escorreram veios do céu
No Planalto Central do Brasil,
Desnudando nuvens de cinza véu.
Bons tempos!

Chove agora no fim de outubro.
Graças a Deus! Ainda bem que chove...
Chuva rápida, esporádica, ansiada.
É tira-gosto: chega às oito, sai às nove.
Será que volta?

Quando o Planeta acabou em águas,
Deus conversou com Noé, o Profeta.
Com informação privilegiada,
Matrizes espertamente saíram da reta.
Que sorte!

Se Deus eleger outro premiado agora,
Bem que poderia me dar uma chance
De não ficar esturricada como tamanduá.
Quem sabe ofereço um bom lance...
Pra não cair no inferno?

Chega da secura do inverno!
Quero primavera molhada,
Quero chuvas de pré-verão,
Quero cheiro de terra aguada!
Vazão!

(Dedicada aos moradores do Planalto Central do Brasil,
Bsb, 21/10/2007)



POESIA
Sandra Fayad

Endireitei o corpo dolorido na cadeira
Para catar as letras com a mão esquerda
E participar (nem que eu seja a derradeira).
Não quero alimentar sentimento de perda,
Quando o Lemberg a ciranda encerrar,
Lotada de Poetas com garantido assento.
Ali também eu quero poder me olhar.
E enquanto a direita fica a repousar,
Aproveito a limitação deste momento
Para o outro lado do cérebro atiçar.

Poesia! Poesia!
Tantas vezes homenageada, tens ainda o direito
De pedir-me que busque sob o firmamento
Um perfumado buquê de amor-perfeito,
Em recompensa por teu milenar alento.

Poesia! Poesia!
É só nos teus braços que me deleito
Na criatividade, que me torna gigante.
Neles, me aninho, durmo o sono perfeito
Para versejar sob teu manto acariciante.

Poesia! Poesia!
Estás em mim e sempre te acercas.
És das psicólogas, a mais competente.
Meus projetos, tu os aguças, estercas.
Meu futuro? Tu o mostras evidente.

Poesia! Poesia!
És meu consolo, companheira extasiante
Que me cativa, me possui e me domina.
Aprisionas-me com grades de ouro maciço
E me escraviza em trono de diamantes.



PLANALTO CENTRAL
- QUEM SOU
Sandra Fayad

Sou rebento de parto normal
Sob árvores secas contorcidas.
Cortaram meu cordão umbilical
Com duras folhas verdes afiadas
Pelo sol ardente do planalto central.

Cresci olhando de perto o azul do céu
Repleto de pássaros em revoada,
Formando aqui e ali um anel
Com o piar alegre de coral afinado.

Colhi frutos dos pés nas estações
Sem subir ao último degrau.
Deitei-me na relva macia do cerrado,
E sonhei com um planeta fraternal.

Corri mundo a partir do meu chão
À procura de algo fenomenal.
Encontrei as pedras de Atenas,
Caminhei ao longo do litoral,
Vi cachoeiras e até os Andes
Descortinar um lindo visual.

Voei sobre o Pacífico e o Atlântico.
De barco, fui de um ao outro lado.
Ouvi Jazz, Country e som Romântico.
Assisti de evento a grande festival.
Mas voltei sempre ao meu rincão
Para encontrar o meu referencial.

Aqui onde dei os primeiros passos,
Onde abri e fecharei os olhos,
Senti o coração de amor inundar
Entre batimentos e descompassos.

Trabalhei árduo para me sustentar
E recebi carinhosos abraços.
Vivi meus melhores momentos,
Criei vínculos indissolúveis,
Parâmetros e fundamentos.

Aprendi que os tons da felicidade
Tem as multicores destes ventos,
Assoprados pela divindade.

(Esta é uma poesia com informações geográficas e históricas, onde descrevo um pouco da minha trajetória. Participou da Ciranda poética “Quem sou”).
BSBDF, 02122006



RAINHA DO CERRADO
Sandra Fayad

Sou árvore de raiz profunda.
- Primogênita da valentia.
Meus galhos finos contorcidos
Enfrentam ventos com galhardia.

Sou rainha gerada no cerrado.
- Nascida na seca do inverno,
Crescida no aguaceiro do verão
Sem apelar ao Padre Eterno.

Vem ser meu ipê da primavera,
A pintar de roxo, rosa e amarelo,
Esse amor que já foi quimera.

Acredita na paixão que te revelo.
Liberta-me da maldita espera
E acorrenta-me a ti, elo por elo.

(Soneto inédito, inspirado nos Ipês do Planalto Central do Brasil)



SEM VOCÊ
(com sete ervas)
Sandra Fayad

Sem você, sou galho de arruda  murcha,
Que não protege de mal olhado,
Nem afasta despacho na encruzilhada
Ou feitiço amarrado por uma bruxa.

Mas se você vem, comigo-ninguém-pode,
Mesmo que a tempestade impiedosa,
Ameace projetos e deixe seqüela..

Na sua ausência, para irmos ao pagode,
Os caminhos não se abrem
E o alecrim se descabela.

Mas se você chega, mesmo na tigela,
A capuchinha se põe mais bela,
O manjericão perfuma tudo o que pode,
Arroxeando de vergonha a  alfavaca donzela..

Sem você a espada de São Jorge
Não atravessa nenhuma pinguela,
Nem aqui em Brasília, nem na Guiné.

Mas se você aparece na minha janela,
A pimenteira até combina com café,
E meu sorriso grita feliz:
Alevante o trinco da cancela!



EM BUSCA DO ELDORADO
Sandra Fayad

Crendices e temores contestados pela Física Quântica
Vida que se descortina mais prática, menos romântica
Avançam todos os dias as comunicações e a ciência
Arrancam nossas raízes, sugam do tronco a essência.

Nunca fomos tão almas penadas, vagando...

Queremos estabelecer padrões de referência
Mas nem conseguimos suprir nossa carência
Que deriva pacífica na tempestade atlântica.
Aceleram-se os motores turbinados da semântica

Em direção a um planeta totalmente clonado.

(Forma poética criada pelo poeta português Fernando Oliveira, o Ferool: "...o poema síntipo é composto, de: um título, mais duas quadras e um verso para arrematar, que deve rimar com o título, assim como um verso solto que não rime com o tema, mas que lhe siga os contornos. As duas quadras devem rimar: a primeira em decrescendo e, a segunda em crescendo, os versos rimados devem ter a mesma energia fónica, de preferência com rimas ricas. O verso solto sem rima prefigura a base do poema, quando este é escrito numa folha e esta é dobrada em duas partes, verificarão que todos os versos casam perfeitamente em termos de rimaria. ..”)



SOLIDÃO
Sandra Fayad

São melhores conselheiros
Os momentos de solidão.
É quando caminho comigo mesma
Que encontro a minha direção,
Que colho frutos e flores no caminho,
Que distingo as cores do arco-íris.

É ali que me sinto como de fato sou,
Que me dispo das representações,
Criadas por inúmeras regras ou
Vestidas de variadas obrigações.

Bendita seja a solidão!

Companheira educada e silenciosa,
Adversária da falsa ilusão,
Misteriosa para os que a desprezam.
Imbatível, no ponto mais íntimo, penetra,
Para, sem disfarces, revelar nua e crua,
A nossa verdade secreta.

Bsb, 04.02.2007

 

 

 

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